Duas estátuas femininas de Madrid

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Post por Cristina Pacino , autora do blog Aqui se fala Português

De metal ou de pedra, no chão, nas praças, seja como for, Madrid tem muitas estátuas. Começando pelo símbolo da cidade, o urso e o madroño na Puerta del Sol.

Várias das estátuas são equestres, com conquistadores, generais e altos mandos do exército nas praças e avenidas, há também de reis godos e monarcas da Reconquista na Plaza de Oriente, de Cervantes e seus personagens, de escritores na Biblioteca Nacional, de pintores e escultores no Paseo del Prado, estátuas urbanas que representam cidadãos madrilenhos, tem também de romanos, de anjos e santos…

Este é um capítulo de uma série sobre as curiosidades das estátuas da capital. A Susana Paquete já falou sobre as esculturas humanas. Hoje rendemos homenagem a 2 estátuas femininas: Cibeles e Clara Campoamor.

Fonte: Wikimedia Commons

1. Cibeles

Quem não conhece a fonte de Cibeles?

Começamos com a estrela, o chafariz ou fonte mais conhecida e comemorada da cidade. Ponto de encontro dos torcedores do Real Madrid e da Seleção Espanhola de futebol e basquete quando o time ganha alguma final de campeonato. Além disso, seus arredores são cenário de manifestações e passeatas, shows, desfiles, a Cabalgata del Orgullo Gay em junho, a Cabalgata de Reyes em janeiro, e uma infinidade de atividades que confluem na sua frente.

Neste post a Tati explica por que o Real Madrid comemora suas vitórias lá.

Fonte de Cibeles - Madrid

Desde quando ela está lá e por quê?

Cibeles na Grécia antiga era a mãe dos deuses e deusa-mãe, deusa da fertilidade, da natureza e da agricultura.

A estátua foi encomendada em 1777 e inaugurada em 1782, em pleno Iluminismo europeu, quando o rei Carlos III voltou da Itália muito influenciado pelo movimento, que levou a uma série de reformas urbanísticas na cidade.

O Iluminismo foi um movimento que incluiu renovação ideológica, política e artística, predominando o Neoclassicismo e a revisão os princípios e da mitologia grega e romana. Aí entra a escolha da deusa para um lugar tão emblemático como a passagem entre o centro e o caminho que levava a Alcalá, terra de Cervantes.

Fonte: Wikipedia

Foi desenhada por Francos Rodríguez para ser instalada na Granja de San Ildefonso, em Segóvia. Mas nunca conheceu outras terras, sempre ficou em Madrid.

No início a estátua da Cibeles ficava mais perto do Palácio de Linares, e só foi para o meio, virando o centro da rotatória em 1895, mais de cem anos depois de sua criação.

Cibeles com a Casa de América – Palácio de Linares ao fundo. Fonte: Wikipedia.

Cibeles também é o nome da rotatória. Ao seu redor ficam o Banco de España, o Palácio das Comunicações (atual sede da prefeitura), a Casa de América (Palácio de Linares) e o Quartel General do Exército (Palacio Buenavista). Ela fica no encontro da Calle Alcalá, Paseo del Prado e Paseo de Recoletos.

Curiosidades da Cibeles

Guardiã do ouro

Difícil de descobrir se é lenda urbana, dizem que se um dia alguém tentar roubar a câmara de ouro do Banco de España e o alarme tocar, o sistema de segurança do lugar fará com que as paredes do cofre desmoronem, os canos estourem e se inundem com a água que corre até o chafariz da Cibeles. Tudo em questão de segundos… parece coisa de filme, né?

Detalhe: o ouro fica a 35 metros de profundidade. Eu gostaria de não estar por perto se um dia isso acontecesse…

Fonte: Wikipedia

Guerra civil

Durante a guerra civil espanhola (1936 a 1939) o chafariz foi coberto com uma estrutura de tijolos em forma de pirâmide, e preenchida com areia e terra. No fim da guerra os próprios cidadãos começaram a descobri-la. Deve ter sido uma sensação de alívio muito grande.

Fonte: Wikimedia Commons

 

2. Clara Campoamor

Espanha dos anos 30. Pense numa política e defensora dos direitos femininos. Agora pense numa das poucas mulheres a se formar e exercer como advogada na época. Escritora, política, advogada, tradutora, costureira e feminista. Tudo junto.

Mas, onde ela fica?

Diferente da Cibeles que fica “no meio do caminho”, a estátua a Clara Campoamor, que na verdade é um busto, fica na praça ao lado do Conde Duque, que se chama Plaza de los Guardas de Corps.

De bronze, foi colocada em 2006 pela prefeitura de Madrid para comemorar os 75 anos do voto feminino na Espanha. Foi feita pelo escultor basco Lucas Alcalde.

Fica(va) em Malasaña porque ela nasceu e morou no bairro.

A estátua “ficava” lá…

Ah, mas como assim? Estamos falando de uma estátua que não existe? Sim e não.

No ano passado alguém roubou o busto de Clara.

Fonte: web Somos Malasaña

Entramos em contato com o Antonio do Somos Malasaña e ele disse que no dia da mulher receberam um documento da prefeitura dizendo que a estátua seria resposta o quanto antes.

Para ilustrar a importância de Campoamor no bairro, vemos uma homenagem a ela no último dia 8 de março:

Ela não está agora, mas sempre esteve. Continuamos conhecendo essa madrileña?

Inícios

Clara Campoamor nasceu em Madrid em 1888, procedia de família simples de mãe costureira e pai contador de um jornal. Seu pai morreu quando ela tinha 10 anos, o que fez que ela começasse a trabalhar como ajudante de costureira já nessa idade. Posteriormente trabalhou em várias funções: telefonista, prestou concurso para auxiliar de telégrafo, foi professora de taquigrafia e datilografia, tradutora de francês e depois secretária do diretor de um jornal conservador, o que lhe ajudou a desenvolver o espírito crítico.

Entrou na faculdade de direito em 1920 e ao final do curso já era feminista declarada. Aos 36 anos era uma das poucas advogadas espanholas da época, e passou a exercer sua profissão, coisa rara para uma mulher. Em 1925 foi a segunda mulher a entrar para o Colégio de Advogados de Madrid.

Clara de toga ao terminar a faculdade de direito. Fonte: El Mundo

Quando a Segunda República foi proclamada, Clara foi eleita deputada em Madrid nas eleições de 1931, e o curioso é que as mulheres podiam ser eleitas, mas não podiam votar. Ela pertenceu ao Partido Radical, por identificar-se com suas ideias políticas: “republicano, liberal, laico e democrático”.

Clara lutou para que o voto feminino fosse aceito na Espanha nas eleições de 1933, e conseguiu. A disputa foi bem acirrada: 161 votos a favor e 121 contra.

Fonte: web Somos Malasaña

Também defendeu a não discriminação por razão de sexo e a igualdade jurídica dos filhos dentro e fora do casamento, o divórcio e o sufrágio universal, ou seja, o direito ao voto a toda população de uma nação, independente de sua raça, sexo, crenças ou condição social. Lembrando que isso já foi defendido na Revolução Francesa e é parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos

Clara foi pressionada tanto pelo Partido Radical como pelo CEDA (Confederación Nacional de Derechas Españolas) e quis entrar para a Izquierda Republicana, sendo proibida. Então já era 1935, e escreveu o livro Mi Pecado Mortal, el voto feminino y yo, falando das lutas parlamentárias.

Exílio

Em 1937 começou a guerra civil espanhola e ela se exilou em Paris, depois foi para Buenos Aires, onde viveu fazendo palestras, traduções e escrevendo biografias, como as de Concepción Arenal, Sor Juana Inés de la Cruz e Quevedo. Tentou voltar para a Espanha em 1940, justo depois do fim da guerra, mas soube que estava sendo procurada por pertencer à maçonaria.

Em 1955 foi para Lausanne na Suíça, onde trabalhou num escritório de advocacia até perder a visão. Faleceu em 1972 e seus restos foram transferidos para San Sebastián, no País Basco.

Homenagens póstumas

Depois da transição, houve várias homenagens a Clara Campoamor. Diversas escolas, centros culturais, associações de mulheres, parques e ruas receberam seu nome. Agora já sabe de quem se trata quando estiver entre Alonso Martínez e Chueca, e passar pela Calle Campoamor.

Em 1988 o Correio lançou um selo em comemoração aos 100 anos de nascimento de Clara, que trabalhou como auxiliar de telégrafo.

Em 2006, no mesmo ano da inauguração do busto, a prefeitura de Madrid criou um prêmio com o seu nome, que é entregue a personalidades da cidade que defenderam a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres.

Dia da inauguração da estátua. Fonte: web da prefeitura de Madrid

Em 2011, para celebrar o centenário do Dia Internacional da Mulher, a Fábrica Nacional de Moneda y Timbre fez uma moeda comemorativa de prata com valor facial de 20 euros que mostra Clara Campoamor.

Mais informações em espanhol sobre a estátua de Clara aqui.

A Cibeles e a Clara Campoamor têm muitas coisas em comum: “fonte de inspiração” para novas ideias e novos tempos, mudanças de paradigma e busca de oportunidades melhores para o avanço da cidade e do país . Olé!

Cris Pacino ensina português e no seu blog usa tecnologia para difundir conhecimento, encurtar distâncias e conectar ideias. Adora pedalar, ir pra praia e bater papo.
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